Encantamento
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A velhinha me ataca na calçada e pergunta pela filha. Tinha um ar um tanto estranho e havia qualquer coisa no seu rosto que denunciava a distância em que vivia. Foi aí que vi seus olhos. O seu olhar vinha de séculos, varara o mundo, o tempo, que sei eu, desprendia uma luz que era uma onda, dessas que somente as mães serão capazes para buscar a filha. Não pude mexer-me. Fiquei ali, quedado, sem um gesto, uma palavra, preso ao seu olhar que me levava a buscar na multidão aquela filha perdida. Vontade de partir naquele instante a perguntar às filhas que passavam qual delas perdera aquela mãe. Foi aí que se deu o encantamento. Pela primeira vez eu soube que "via" aquela filha, vestia branco e tinha um ar tranqüilo. A surpresa da visão me emocionou, transformou-se em susto, espanto e medo. Como eu pude ver quem não estava? No entanto eu sei que a ausente andou nos meus olhos e se fez mensagem. Devo ter tido uma expressão bizarra, meu rosto denunciara o encantamento, pois a velhinha, um tanto surpreendida, balançava a cabeça, talvez pensando: pobre homem!