Anhangüera
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Venho do fundo do tempo Me chamam diabo por velho. Fui santo anjo no Império Banido por traição Sem alma, nem coração, Sou só raiz de um passado E venho hoje a esse pago Despilchado de maldade Pra primeira caridade Desde os tempos de Adão. Não debandem meus senhores, Bem digo, venho em sossego! De vós quero só um pelego Porque o relato é comprido E ando pouco dormido Por pensar no desalento Que me chegou pelo vento Em parcos pingos de chuva: O vosso campo quer cura, Está morrendo ferido... Mermaram os quartos de ronda, Os tropeiros, as tropeadas. O aboio das toadas, Nas noites claras e mansas, Se perdeu junto à andança Que o tempo impôs ao seu jeito. Despassito e sem direito De contradita ou rebate. Falta pouco pro arremate De fazer tudo lembrança. As carretas aonde andam? Onde está o passo manso Com choramingos e ranços Dos eixos empoeirados? - os muchachos desmamados Hoje enfeitam moradas, São adornos que as estradas Perderam para os galpões Alguns viraram tições No fogo em meio ao rodado. As taperas onde estão? Aonde quer que se vá! Aqui, ali, acolá... ... a esperar um retorno. Silentes no seu entono Feito um potrilho na forma A vislumbrar sua hora De ter o queixo quebrado Sentindo o lombo apertado Num dia claro de outono.
Não se vê mais o cantor De violão, alma e garganta Fazer levantar a pampa Solito e sem atropelos, Desfiando seus enredos Desenredando injustiças Cantando o pago, as conquistas, Coisas de campo e de gente, Com o mesmo olhar combatente Do centauro dos varzedos. Os orelhadores. Ah, os orelhadores! Aqueles sim eram tauras. Sujeitavam mil cavalos Tinham no pulso um palanque, Tinham a força de um gigante Nos contrafortes machaços Escorando os manotaços De baguais e de aporreados Nos rituais abençoados Da religião do Rio Grande. As boleadeiras se foram Com maniclas e retovos, Com seus pealos de estouro - verdadeiras poesias – Sumiram as três marias. E o boleador campechano, De bombacha de dois panos, De vincha rubra na testa, Virou legenda que resta Pros comentários do povo. Sumiram os bois franqueiros E a cavalhada crinuda, Aquelas velhas sisudas Com caras de vacas brabas Já não resmungam suas falas Ao derredor das cozinhas. Se foi o tempo em que as rinhas Quebravam monotonias, Chegou o tempo em que as vinhas Cansaram das próprias uvas. E assim me quedo por velho Num último manotaço. Guardem de mim um pedaço Ao menos como lembrança Pra assustar a criança Que teima em fazer arte Porque é seguro o aparte Na boca do modernismo Já chega de banditismo Do diabo velho um abraço!!