Alma em Verso
Poesia

Um Dia Desses

Anderson Fonseca

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Um dia desses... vou rumar ao pago...! Para relembrar a infância que lá deixei! Estender a vista da porteira aos fundos, Rever o rancho onde eu fiz meu mundo, E algum sonho antigo que me distanciei; Um dia desses... quero ser regresso... E tomar o rumo do "rincão dos valos" Ver o gado pampa, o baio coleira, meus cavalos; E num pataleio, ao cerrar meus olhos... Buscar imagens que guardei dali; Renascendo no silêncio d'algum corredor, Ressuscitando minh'alma na beleza da cor, No verdor de um pasto que nunca esqueci; Vou pescar na sanga do "passo das pedras" Espelho de água que refletiu meus sonhos, E no olhar ingênuo de um piá arteiro... Beber lonjuras pelos finais de tardes, Sentindo a brisa a chicotear meu rosto, Contemplando os campos, o azul do céu, Onde nuvens mansas em seu trote alçado, Vão rumando quietas sobre os descampados, Até se unirem num imenso véu; Quero estender uma tropa gorda, Vendo os fios dos lombos serpentando a estrada, E deixar para trás a "Estância Mimosa", Sujeitando um baio a remoer o feio, Ouvindo coscojas, esporas e arreios... Com pingos de muda que eu mesmo domei; E encontrar de novo, nesse Sul do mundo, A força dos homens que rumaram a estrada, E se perderam pelos ranchos povoeiros... Sem encontrar os sonhos, sem vida e sem nada! Quero, nos finais de tarde, que voltar do campo, Ser apenas eu, mas num tempo novo... Esquecer a vida que deixarei no povo, Pelas ruelas tortas do meu viver; Quero ser sinuelo para os que se apartaram, E deixaram a vida por algum confim, Ser o partitura de algum vento xucro, Sem nunca me perder do lugar de onde vim; Quero "froxar" as rédeas deste tempo ufano, Que roubou um pedaço da minha infância livre, E soltar a corda dos seis tentos de um laço... Pra dobrar num pealo o que em mim ainda vive; E sofrenando o corpo de algum caborteiro, Que parou rodeio por esta vida maula, Fazendo escarcéu sem me dar motivos, Nos contratempos que me prendeu em jaulas; Nas rodas de mates em frente ao rancho... Despontando fumo para acender um baio, Deitar meus olhos pelo fio da fumaça... Campeando um rumo num findar de maio; E nas noites frias do invernos brabos... Quando a geada grande vier cobrir os ranchos, Só bastará um catre junto ao corpo dela, E um perfume doce a inundar meu poncho; Quero as estrelas que fugiram de mim Quando meus olhos minguaram na luz, E se perderam por um céu cinzento... Fechado no luto, ao pesar-me a cruz; E num pontear de guitarra, bordona e prima, Conselhos fartos de um tempo antigo, Onde os homens de olhares termos, Aqueciam invernos num calor de amigo; Um dia desses... ainda me dou por conta, Que amor e ternura são partes de mim... E que junto a amada quero ser espera... Ao crescer o ventre de um amor sem fim; Quero dividir sonhos de bonecas e petiços, E povoar ilusões num viver tranquilo... Enchendo os olhos com essa paisagem, Renascendo puro, pelo olhar de um filho;