O Ritmo do Tempo
Publicado em
Grãos de terra se acumulam Sob o batente da porta da frente, Varro-o todas as manhãs, tardes e noites, varro-o. Sujo as mesmas louças no café, As mesmas do almoço de ontem, As mesmas da janta amanhã.
São as talheres da minha mãe, Os pratos da minha sogra, Até mesmo a madeira da porta veio do guatambu de meu pai. Nada se construiu pelas mãos… suadas, calejadas, as mãos, Que me tocavam, me amavam.
Os braços firmes que me seguravam, Não ergueram as tábuas e as telhas, Não guiaram o gado ao bom pasto, Não. As mãos, os braços, se foram, As pernas, o cabelo, o sorriso, Já não lembro a cor dos olhos, Esqueci o tom da voz, da risada.
É que passou o tempo tão rápido. Mais depressa que os grãos de poeira na porta, não esperou que eu estivesse pronta para varrer, Só passou. Voando, bagunçando tudo. Passou o tempo, sem ele voltar, Não o tempo, mas o homem, Que eu estava a esperar.
Deixe-o para lá, o homem, não o tempo, Eles diziam, porque o tempo passa, Passou o do homem, passou o do casório, Logo passa o tempo dos filhos, Logo o tempo passa e cá fico só, Sem marido, sem crianças, só poeira, Só porta, louças e velha madeira.
Deixe-o para lá, penso sozinha,
O tempo, não o homem, Porque o tempo não entende de amor, O tempo só sabe de guerra, Só sabe de trazer poeira, só dor, Vá passar para lá, falo em voz alta, A casa está vazia, falo com o tempo.
Ele está em todos os lugares, Os dois estão. O tempo, porque passa, O homem, porque não o esqueço. Não esqueço do beijo às pressas, Do pedido, das promessas, Case-se comigo, deixe tudo pronto, Fale com o padre, para assim que eu voltar…
Mas como se encontra o caminho Para uma casa vazia? Vazia de quase tudo, menos do tempo Ele insiste em passar, esvaziando Leva o timbre do riso, leva tudo Cadê a lembrança do dia no campo? Cadê a esperança que ano passado eu tinha?
Foi-se com o tempo, tudo vai com ele. Só não o amor. Depende do amor. Meu amor foi com o tempo, Meu amor ficou com o tempo. É que eu já nem sei do que falo, Rio Grande, governo, estado, Todos eles são o tempo pra mim.
As guerras, os argentinos, os chimangos, Cada dia um ditava o tempo, Sempre tempo de ir, nunca de voltar, Tempo de dar adeus, nunca de amar, Eram os homens partindo, Eram crianças chorando, E mulheres esperando esse maldito tempo passar.
Passa-te tempo, vai-te logo embora, Já não aguento mais o esperar. Dói cada dia mais meu peito, Cansam-se cada dia mais minhas mãos, O trabalho faço nos ecos das lembranças
Da rotina que se crava embaixo da pele, Não da vontade, não do amor.
Vivo nos ecos dos sonhos que tenho, Dos sonhos que tinha, foram com o tempo. Vivo com o chapéu que não coube na mala, Com a mesa pela metade, eu não sei serrar, Também não soube encerrar a espera... Ah Tempo, porque tu passa? Porque não espera ele voltar?
E nossas crianças, nossos amores? E o nosso casório, como que fica? Não vê o que faço? Te imploro, Estou em pé, mas posso ficar de joelhos, Pobres mulheres as que perderam os filhos também. Oro, peço a Deus por mais de ti, Não vê tempo? Só queria mais de ti.
Mais cinco minutos antes da partida, Um único café da manhã, Dessa vez com novas louças, Compraria até novas talheres, Sujaria e lavaria novos pratos, copos, Até um vestido chique demais Pra nossa casinha de madeira velha.
Mas de nada adianta, o tempo não ouve, Não tem olhos de amor, o tempo não vê, Só o que ele sabe fazer é passar. Mas a gente vê, com a alma até ouve A súplica, a tristeza, a gente lê as linhas Que o tempo escreve sem saber, Sem entender, só escreve.
No próprio ritmo, Com caneta, Tinta negra, Pelo papel. Por entre a gente, Sem perguntar, Trilha o caminho ao Céu.
Se a gente soubesse a jornada,
Se tivesse data marcada pra partir e pra voltar, A gente faria direito, sem arrependimentos, Sem precisar retornar. Mas não tem data e nem hora, a gente erra E só basta esperar. Esperar que seja certo, E que o ritmo do tempo um dia aprenda o que é amar.