Alma Campeira
Publicado em
Campeiro ! Eu já morri muitas vezes Pra renascer sobre os lombos. Venho compondo meus tombos, Sempre entre ovelhas e rezes. Primeiro os padres Jesuítas Me moldaram feito um mouro: Ginete garrão de touro Pelas caçadas proscritas. Com cascos cruzei fronteiras, Emoldurando as distâncias. Com sal grosso fiz estâncias. Então guardei boleadeiras Quando surgiram mangueiras E as cercas de pedras mansas. Morri, renasci guerreiro. Juntei ao laço uma lança. Tratados fecharam guerra, Brasões fizeram partilha, Branqueei de ossos coxilhas, Meu sangue voltou pra terra. Então, renasci vaqueano Pra ser outra vez campeiro. Toldei um rancho ambulante: Fiz-me novo retirante, Peão me fiz carreteiro. Ao meu costado passaram Outros que se retiraram E que a cavalo empurraram Mil tropas pro saladeiro. O barro matou a palha, Queimando se fez cidade, E eu, já de avançada idade, Ergui um rancho de lata... Nazarenas na parede, Meus pés pisando alpargatas Num vai-e-vem de sogueiro. Fui morrendo carroceiro, Melenas de pura prata !... Mas ainda em gene vago N’algum canto de atavismo, Me conservando o mutismo Na geração que vem vindo. Mudei a cada existência: Fui xiripá, fui bombacha... E, hoje, esta estranha aparência Muda a casca, fica a essência, Numa atávica querência De campo dentro da alma.