Patacoada
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Já fui piazote metido Fui alçado do rabicho; Me criei pelos bolichos Ouvindo e contando lorota. E quando eu saía da grota Disposto a fazer arruaça, Sempre meia de cachaça Ia no cano da bota.
E foi num fim-de-semana Não me lembro bem o ano; Que este gaudério e "andejano" Se meteu numa enrascada, Só por soltar patacoada E querer bancar o alçado, Quase que fico enterrado No fundo de uma invernada...
Era sábado, escurecia E eu piazito e pachola, Para a vida não dava bola E só queria gauderiar. Em tudo eu ia me enfiar Sem mesmo ser convidado; E em bailes bem largados É que eu gostava de dançar.
Preparei o meu cavalo Pilchas, revólver e facão, E saí pelo rincão Procurando algum fandango. Mas louco para passar o mango Em algum coitado qualquer, Que por ventura quisesse Tirar penas deste frango.
Vejam só como é a vida Quem procura sempre acha; Ainda mais quando a cachaça Faz parte do entrevero. Pois eu achei um parceiro E meti-me numa fria; Mas aprendi naquele dia A não ser mais patacoeiro.
Depois de bebermos juntos Duas guampas bem lotadas Saímos pela estrada Com o sangue já bem quente; Quando ouvimos pela frente Ronco de gaita e violão E um rancho de beira-chão Atopetado de gente...
Para quem já vinha embalado Aquilo era uma beleza, Pois eu digo com certeza Quem se criou lá p'ra fora, Não esqueceu até agora Nos bailes de chão batido. Onde quem é exibido Já entra arrastando a espora.
Combinamos de abusar Deixamos os pingos pastando; E para porta fui chegando E já soltei a patacoada. Perguntei: - quanto é a entrada P'ra se dançar neste bochincho? E já ouvi o cochicho Na boca da mulherada!
O porteiro respondeu Já comprando minha vasa: "-Bochincho é na tua casa Tu ta gambá, vai dormir, Se não quiser engolir Minha mão com dedo e tudo!" E eu frangote e topetudo Nunca pensei em sair.
Arranquei do meu facão E gritei bem debochado: -Me pula, me faz um costado, E o índio se atracou; A primeira ele errou Mas na segunda me perdi, E lhes juro que não vi Quando a indiada nos cercou.
Lá fresca que tempo feio Este que eu me meti. Estava pior que bem-te-vi Em dia de vento Norte, Sentia chegar a morte Pois já estava cansado, Com o corpo ensangüentado E não morri por pura sorte!
Mas quando vi uma brecha E o parceiro que corria, Pensei: - não é covardia, Montei no pingo e parti. O parceiro nunca mais vi Dizem que ficou marcado Mas hoje está velho e cansado; Para os lados de Cacequi!...
Pois apanhamos daquela feita Pior que porco roceiro; E não te nego companheiro, Me escapei foi por um triz. Mas nunca mais meti o nariz Aonde não sou chamado, Deixei de ser um alçado E hoje sou mais feliz.
Eu nunca mais me passei Em bailes tomando trago. Hoje eu só tomo um amargo Com a china que me quer bem; E até subir para o além Recomendo à rapaziada: -Trago, briga e patacoada Não traz lucro p'ra ninguém!...