De Redea Frouxa
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A lo largo... No cair da tarde, venho pelo sem fim do corredor.
Chegando ao passo do lajeado cruzo a porteira grande da estância, vigiada por um João-de-Barro que fez ninho bem na ponta do moirão.
Já lanço um cumprimento trocado pra Aroeira, junto da velha tapera.
Ao longe um Quero-Quero, -Sentinela altaneiro do pampa - voejando baixo “prende o grito”, como que avisando para os das “casa” que vem chegando gente!
Sigo no trote chasqueiro, venho a lo léo, fatigado da tropeada, e já de rédea frouxa cruzo a canhada.
Perto da sanga o velho salso chorão ao sopro do vento, me parece que, abana pra quem se achega de já hoje.
Apeio antes da cancela das casas, e a cachorrada já vem me receber com latidos e abanos de rabo.
Entre os pessegueiros floridos, o casarão da estância apresenta-se imponente, com suas paredes sólidas e caiadas, a porta de duas folhas, janelas grandes e seus postigos, telhas de barro na cobertura com cumeeira e beiral.
Da água-furtada, sombras e luzes se apresentam em uma simbiose terrunha, formadas pela dança das labaredas de algumas velas.
Sigo a passos lerdos sobre o chão desnivelado; Com o meu tordilho-salino levado pelo cabresto.
Iluminado pelo clarão de uma lua cheia, no pátio, eu identifico a silhueta do poço de balde, entre as duas figueiras de frente pra ramada.
Depois de silenciar as “choronas” de rosetas grandes, tiro o chapéu e me preparo para sacar o poncho que vem “encharcado” de mágoas passarinheiras; e vou dependurar no primeiro gancho, perto do cavalete estático, encilhado com os arreios da saudade.
Já recebo um buenas noites! do peão caseiro, por nome: Desidério. Me estende a mão, num gesto recorrente para os confrades deste pago.
Desensilho o flete, tiro o buçal, e largo o pingo no potreiro do fundo, que vai assim, pisando nos cardos; Cruza o boqueirão, depois de rebolcar-se na grama, sai buscando o murmúrio de um caudal de águas cristalinas.
Já de pronto, vou encostando a cambona bem junto ao pai-de-fogo; Busco uma cuia em um gancho de aspa de cervo e recomeço outra vez, o ritual do chimarrão com gosto de poejo ou maçanilha.
Puxo um cepo, me abanco perto da estufa onde queima uma lenha de branquilho que, bem de devagar vai enfumaçando os pelegos.
Um quartito de capincho já está dorando aos poucos sobre a trempe; entre um mate e outro, vou “remoendo” uma “galleta”.
Enquanto me “visto” de luz neste fogão campechano, me ponho quieto a “mirar”.
Contemplo as paredes timbradas de coragem. Tesouras de quebracho, e os caibros de guajuvira. Os esteios tingidos de picumã onde arde um candeeiro, e a quincha de santa-fé e sonhos; E te reconheço galpão, como um altar xucro do pago!
Por vezes, só para confrontar a quietude, os campeiros se lançam num cantochão uníssono, embalados pela “oito baixos”, ou num violão milongueiro.
Sempre que estou de volta compreendo que aqui, é onde a querência se manifesta pra gente.
Quem é da campanha, ao ouvir o grito: -Passe pra diante! Encontra sempre carne gorda, mate quente e um buenas, como parte do teu ritual.
E sabe que ali não se nega o desencilhar. Por isso eu digo e repito: Feliz do campeiro que tem um galpão pra chegar.