Homem Cavalo-Centauro
Êra boi... Marcha boiada. Olha o rodeio boi...
Amanhã de madrugada, Cedo, bem cedo, Mal podendo avistar as garras, Quero rumar campo afora, Lá pra invernada do angico: - As pampas já estão parindo, É preciso ficar atento - Cria trancada, bicheira, Algum carancho atrevido Que pode vir maltratar Um flaco recém nascido...
Êra boi... Volta boi...
Se sobrar tempo na tarde, Vou ver a esteira da sanga Que, na semana passada foi levada de roldão Com aquela manga d’agua Que branqueou a várzea do fundo.
Êra boi, Que gadaria maleva Esqueceu-se do rodeio...?
Quando eu chegar lá no posto; Maria de mate pronto... Sento ali no oitão do rancho Pra dois ou três mate-amargo E já me vou novamente Pra terminar mais um dia, Na estância do Passo Grande.
- - - - - - - Eis a realidade... Que ao sonhador afronta:
- “Sai da frente, velho louco, Quer morrer atropelado? Tira esta tralha da rua Que mais parece um lixão, Puxa esta carroça maldita De lata e de papelão...!”
E, como se acordasse De um devaneio profundo, Velho Amâncio recobrou-se Voltando a realidade: Não era mais um posteiro Mas um entulho ambulante, Produto da sociedade.
Desculpou-se ao engravatado: - “Me perdoe, me destrai”. E ainda ouviu do cidadão: - “Estes velhos papeleiros Não deveriam existir!”
É verdade... - Ele pensou - O homem tinha razão; Mas nas Estâncias não querem velhos, Já não servem mais pra lida, E aqui no povo, sou estorvo. Qual o caminho a seguir Pra changuear por uns trocados? - Meu patrão, pra onde ir...?
E, nas avenidas largas Sol a pino, o quente asfalto, Homem-cavalo: centauro. Segue caminhos sem volta, Tracionando a própria sorte, Carroceando vida e morte.
Léguas de campos nos olhos, Escaramuças na mente, Ganas de adentrar num passo E refrescar a melena Nos espelhos das aguadas... Bombachita arremangada Nos pés, chinelas de dedo Alma sangrando saudades...
Êra boi, Olha o rodeio boi...
Segue a despacio, solito, Carreteando o que restou, Da vida que sempre levou... Sempre cuidando do alheio.
Não teve tempo pra si, Seus netos não viu crescer; Seus filhos, ainda piazitos, Se foram pra mui distante Outro mundo conhecer...
Assim até que foi “lindo”, Para não vê-lo sofrer.
Mas, o tempo, que não para, Foi lhe cobrando a lo largo Muito além do que devia; Não entendia, por bueno, Por que depois de velhito, Sem forças e já estropiado Virara assim um “cavalo”, Puxando aquela carroça Pra poder sobreviver?! E se perdia no mais Em seus recuerdos distantes; Tranqueava tropilhas grandes De sonhos e devaneios...
Mas ninguém lhe entendia Pois viveu quase solito, A cruzar tempos sesmeiros De léguas de solidão.
Por vezes, ria de si Parecendo louco aos outros...
Olhem pra mim: Vejam estas bombachas rotas; Vejam meus pés que carregam As fuligens destas ruas; Vejam meus olhos que teimam Em ficar assim molhados Como barrancas de sanga, Parecendo estar chorando; Vejam minhas melenas mouras Que batizei de... saudade.
Homem-Cavalo: Centauro, Tranqueia a vida e o tempo, Às margens das avenidas... Às margens da Sociedade! ...