Alma em Verso
Poesia

A Lenda do Capão da Gaita – Adão Quevedo

Adão Quevedo

IV Colheita de Versos Abdon Batista - SCPublicado em

Dizem que é mal-assombrado aquele capão de mato, pois ali, Chico Mulato, um gaiteiro afamado, anoiteceu pendurado com uma corda no pescoço, era um macabro esboço de um amor malsucedido que levou o falecido até o fundo do poço. Quando conheceu a Bela, que era meiga e que era doce, o Chico pensou que fosse dono do coração dela e pintou uma aquarela na ilusão que ele tinha... Mas a Bela, coitadinha, tinha cabeça de vento e a flor do sentimento trocou por erva daninha. No dia do casamento, Belinha fugiu com outro e o Chico, já quase louco, saiu sem rumo, ao relento, sem tirar do pensamento a Bela, sua paixão... Ferido no coração, de alma desencantada, pegou solito a estrada com uma corda na mão. O seu cavalo alazão, bom de rédeas, bem domado, ficou perdido, encilhado, com um par de rédeas no chão, rondando o antigo capão na beira do corredor... Só um bilhete e uma flor testemunharam o fato, de que o Chico Mulato se enforcou por amor. A gaita, num galho torto, pendurada na figueira, sua fiel companheira na vida e depois de morto, lhe servindo de conforto, presa nas duas alças, como se fosse uma balsa para transpor a existência, num desencanto de ausência depois da última valsa... A noiva, esta jamais alguém ouviu falar dela... Dizem até que a Bela bandeou-se para o Uruguai. Nem mesmo seu velho pai, nem sua mãe, desolada, sabem o rumo da estrada que a própria filha escolheu... Contam que se perdeu depois de contrabandeada. Isto tudo aconteceu num tempo quase esquecido... Foi antes de eu ter nascido que o gaiteiro morreu, só a lenda sobreviveu. Sextas-feiras, à noitinha, lá na velha estradinha beirando o capão de mato, sem ter as mãos do mulato... Uma gaita toca sozinha!