A SANGA BEIJOU MEUS PÉS
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A sanga beijou meus pés nessa tarde... Não pedi, foi algo natural, de improviso. Ela simplesmente chegou, Beijou meus pés e continuou a correr.
A sanga não pediu licença, mostrou a cara... Não tinha garras afiadas nem pensamentos vãos. Sabia bem o que queria: correr, correr e correr.
A sanga me lembrou de um moço, já faz tempo... Um mocito pleno de esperanças, Pechando o vento de frente, Comendo poeira e distâncias, Gastando pingos e esporas pelas volteadas do mundo, Pois simplesmente queria correr, correr e correr. Talvez os olhos do moço Mirassem mais que a visão... Procurando pela vida Muito mais que água e pão.
Talvez buscassem sustento Além do frio das paredes, Pra toda a fome e a sede Da alma e do coração.
E foram tantos galopes E tantas encruzilhadas... E foram tombos e golpes, Vitórias e retiradas. O moço não se aquietava Por nada nem por ninguém, E tinha os olhos afiados De sempre enxergar além.
Por certo os olhos do moço, Por mais que pudessem ver... Por mais que mirassem claros Os raios do amanhecer, Jamais, jamais enxergaram Que o futuro que buscavam Se resumia em somente Correr, correr e correr. Esse mocito pachola Correu, correu mundo afora Sem nem saber onde ir; E qual a sanga de agora Sofreu cheias e estios... Mas o mocito pachola, Gastando pingos e esporas, Jamais achou o seu rio.
A sua alma de sanga Um dia cansou de andar; Mas, diferente das águas, O moço pode voltar.
A sanga beijou meus pés nessa tarde E eu me senti em casa; O moço voltou, enfim... Mais velho, sim, mas voltou. O mesmo rancho de antes, A mesma varanda amiga... E nos olhos a fumaça De uma saudade antiga Que pelos bretes da vida Sangrou, sangrou e sangrou. A sanga beijou meus pés Feito quem abre uma porta Pra quem se achega cansado... Pra quem traz dentro do peito Um mosaico de silêncios E um coração afogado.
Busquei minhas esperanças, Que a vida botou na canga... E os dias doces da infância Nas águas claras da sanga.
Mirei no espelho das águas... Só encontrei uma sombra De quem um dia partiu; E de repente enxerguei O que, por campear além, O olhar de moço não viu.
A sanga beijou meus pés Como beijei os meus sonhos Que pelas voltas da vida Encontrei sem perceber. Me acheguei, mostrei a cara... Foi natural, de improviso; Beijei e, após um sorriso, Parti de alma vazia, Pois eu somente sabia Correr, correr e correr!