A Reza de um Grosso
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Um peão desses de estância, bem xirú e bem grosso, criado sempre no campo, um dia foi ao “povo”, resolveu chegar na igreja. Atou o “pingo” na porta, meio sem jeito, mas decidido, entrou foi até o altar e diante da imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, começou a “rezar” assim:
Jesus: Eu só sei rezar male-male a Ave Maria. Que minha mãe que sabia me ensinou quando guri. Depois, ainda piazito, me larguei prá campereada sem tê tempo prá mais nada... E inté lê nem aprendi.
Nasci e cresci lá nas timba, e o padre quando lá ia, parece que só fazia bautizado ou casamento. E eu cresci ansim, inté grande meio burro... anarfabeto, sem conhecê um decreto... Sem conhecê mandamento.
Jesus: o Sinhô perdoa! Mas hoje eu vim prá rezá. Não sei si inda vou lembrá da reza ansim, bem na artura. Mas Deus que compreende tudo de certo que vai me ouvi. E atendendo o que eu pedi, descurpa a minha grossura!
Jesus: me faz que a Ritoca não me olhe mais pro Felício. Se não eu faço um estropício daqueles de carrerada! Mas se êsse cuera insistí Em namorá com a Ritoca, eu me meto la nas toca, mas pico êle a facada!
Jesus: me engorda o cavalo que sempre anda comigo. Afinal êsse é um amigo que eu poso mesmo contá. Os outro não são cavalo nem amigos verdadeiros. Se fazem de meus parceiros, ma só querem é me explorá!
Jesus: agora um pedido, mas é só aqui para a gente: me faz que o tal de Nico Vicente me pague a conta, o canaia! Pois ficou de me pagá o servicito dum touso, e agora tá mais custoso que a tar de reforma “agraia”!
Outro pedido, Jesus: E êste é bastante sério. me faz que o compadre Lautério, sare logo – o pobre home! Pois tem um mundo de filho! e se não cura aquêle pé, pobre ansim, como êle é, vai inté morrê de fome!
Mas bueno, Jesus vou indo, O “povo” é longe a distância, daqui inté lá na estância, é prá mais de nove légua. Se eu saio agora daqui, que já não é muito cedo, fazendo a conta nos dedos, só chego amanhã. Xoégua!
Por isso não me leve a mal se eu saio ansim meio às pressa! Mas eu gostei da conversa e voltarei qualquer dia. Le peço mais alguma coisa, boto um ramo na sua cruz, e depois le rezo, Jesus, quatro ou cinco Ave Maria!