A Morte de um Peleador
Publicado em
Tempo atrás peleou lindo, honrando a pátria gaúcha. Sua memória hoje puxa os entrechoques já findos, sente que seu fim vem vindo e tem de parar rodeio, trucar a vida em carteio pra rever os que partiram, mas que sempre insistiram em surgir nos sonhos feios.
Sua vida foi de peleia desde os tempos de guri, uma changa aqui e ali pra deixar a pança cheia, porque o sangue na veia já corria revoltado... Brigar co’ a fome um pecado que aumentava sua desgraça e cresceu fazendo arruaça, tão forte e esfarrapado.
De tanto pelear à toa pelos rincões da querência, luziu uma luz na consciência, como uma centelha boa, dizendo-lhe que a pessoa um dia tem que se ajeitar fazendo o que mais gostar, sem importar o salário e se ajustou voluntário para ir à guerra pelear.
Se foi sem olhar para trás, sobre as melenas a vincha, cavalo sem sobre cincha, de peito aberto no más, matava até o satanás se lhe cruzasse a frente, cerrando dente com dente goela aberta, lança em punho tendo o sol por testemunho a alumbrar o valente.
Tinha a faca carneadeira, tinha a adaga pura prata, ventena louco das patas, acampamento e trincheira companheirada matreira, rondas pela madrugada, trago, saudade, estrada, coragem e medo em quantia da folha que produzia a gravata colorada.
O lenço era o ideal, o símbolo, a referência, trincheira de resistência no entrevero bagual. Era o legado ancestral levado por toda a vida e com força desmedida defendido até a morte na base do berro forte com valentia incontida.
Lembranças lhe vêm a tona atropelando a memória, sabe que fez sua história de maneira redomona; não teve patrão e nem dona, só o pago e a velha bandeira, que a sua origem campeira defendeu com muito afinco nos idos de trinta e cinco até a hora derradeira.
Vê nuvens de pêlo osco bailando no firmamento, cheiro de sangue no vento, golpes profundos e toscos corpos rubros de enrosco, tombados sobre as flexilhas, outros largados em pilhas, estrebuchados, fedendo, que morreram defendendo as falanges farroupilhas.
Bate cascos e relinchos retumbam nos seus ouvidos, gritos, rezas e gemidos murmurados em bochinchos; mesmo quebrando o corincho de muito cuera pavena, seus olhos choram de pena dos que se foram peleando, mas acabaram deixando nos ranchos crias pequenas.
Relembra ele os seus, diz que é quase sempre assim, quando se aproxima o fim pra prestar contas a Deus, o tempo que se perdeu volta todo num instante e ali quem não se garante e nem assume seus atos só anseia ir ao mato, se achica mesmo o gigante.
Mas ele é que não se achica, afinal nunca foi disso, sempre causou reboliço com a sua faca nanica e a morte que lhe estica os braços pra um abraço se nunca temeu planchaço e nem fugiu de peleia com a sua fuça feia vai até levar um cagaço.
Solta então um sapucay e uma baita gargalhada, ri com a situação criada pela vida que se esvai, fica de pé, mas não cai e já nem sente mais dor, lhe corre um frio e um calor, sabe que não vai viver, mas vale a pena morrer sendo quebra e peleador.
Sente a bichita atrevida lhe sorrindo traiçoeira, tianga louca de faceira querendo levar sua vida, sabe que não tem saída, mas nem cogita em fugir, já vinha pensando em ir pelear em plaga estranha, por vez se perde ou se ganha, tem é que se divertir.
A morte de um peleador é uma cousa muito linda, quando peleando é bem vinda, não importa como for, encara firme o pavor, só se benze e diz amém, lembra o que fez de bem, porque isto é o que vale, manda que tudo se cale e cala o pavor também.
E quando então a morte lhe abraça o corpo ereto, o velho guerreiro inquieto agradece a sua sorte, dá o último sopro forte abraçando ela também, do jeito que lhe convém vai numa ansiedade louca e beija a morte na boca se indo pelear no além.