Alma em Verso
Poesia

A Casa da Lembrança

Juarez Machado de Farias

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Uma casa é tão fria Quando apenas os retratos na parede Nos esperam...

Um deserto de palavras Vai penumbrando a chegada, E a gente quase que volta Para o começo da estrada.

Há um vazio pelos cantos E algum fantasma se esconde Naquele quadro de espantos Que residem não sei onde...

O quintal sofre com o tempo Sem qualquer mão a cuidá-lo, E o campo do arrendador Só tem soja e não cavalo.

Na gaveta mais interna, Uma gaitinha de boca Que os lábios da minha infância Beijaram com ânsia louca.

E se eu tocá-la, de novo, O mesmo som soará Como um sonho que retorna Daquele tempo de piá.

Uma flauta em dó menor É o assovio do vento, E rangem velhas janelas Na casa do pensamento...

Os livros, emudecidos, Com folhas amareladas, São os recuerdos roídos E as histórias deslembradas.

O pó que neles reside É o sinal do esquecimento Do dono que se decide Por solidões de cimento.

Não vou mais soprar a brasa Desse lugar de criança Que morreu e que não passa; A casa desta lembrança.

Somente o cachorro baio Nos reconhece, sorrindo... Reencontra nossos olhos E o tempo que fora lindo.

Não pergunta o que fizemos, Ama o retorno, mais nada. Ficou preso ao nosso adeus, Guardando a casa fechada.

Só ele nos dá um abraço E nos devolve uma aurora. Uma saudade se agranda E a gente quase que chora

Porque somos emoção No retorno às velhas casas: Aves cansadas que são, Que fecharam suas asas.