A Casa da Lembrança
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Uma casa é tão fria Quando apenas os retratos na parede Nos esperam...
Um deserto de palavras Vai penumbrando a chegada, E a gente quase que volta Para o começo da estrada.
Há um vazio pelos cantos E algum fantasma se esconde Naquele quadro de espantos Que residem não sei onde...
O quintal sofre com o tempo Sem qualquer mão a cuidá-lo, E o campo do arrendador Só tem soja e não cavalo.
Na gaveta mais interna, Uma gaitinha de boca Que os lábios da minha infância Beijaram com ânsia louca.
E se eu tocá-la, de novo, O mesmo som soará Como um sonho que retorna Daquele tempo de piá.
Uma flauta em dó menor É o assovio do vento, E rangem velhas janelas Na casa do pensamento...
Os livros, emudecidos, Com folhas amareladas, São os recuerdos roídos E as histórias deslembradas.
O pó que neles reside É o sinal do esquecimento Do dono que se decide Por solidões de cimento.
Não vou mais soprar a brasa Desse lugar de criança Que morreu e que não passa; A casa desta lembrança.
Somente o cachorro baio Nos reconhece, sorrindo... Reencontra nossos olhos E o tempo que fora lindo.
Não pergunta o que fizemos, Ama o retorno, mais nada. Ficou preso ao nosso adeus, Guardando a casa fechada.
Só ele nos dá um abraço E nos devolve uma aurora. Uma saudade se agranda E a gente quase que chora
Porque somos emoção No retorno às velhas casas: Aves cansadas que são, Que fecharam suas asas.