A Canção que a Mãe Cantava
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"Nana filhinho Dorme meu bem Mamãe tá solita Papai logo vem"
Com carinho, com ternura que só as mães sabem ter, a mãe gaúcha embalava o piazito que recém, recém havia chegado para os rodeios da vida. Era um rancho pobre, humilde, erguido lá no silêncio de uma restinga perdida...
O pai - posteiro da estância - passava o dia inteirinho cumprindo o nobre trabalho distante do rancho amado. Rodeio... apartes e domas, invernada recorrida... E à tarde - acabada a lida - voltava ao rancho, cansado...
Mas vinha muito feliz o pobre campeiro rude, pois tinha a santa virtude de ser um pai carinhoso. E a mãe, que triste ficava no abandono o dia inteiro, corria alegre ao terreiro para rever o esposo.
Um beijo terno estalava num lábio rubro e ardente... e outro beijo ecoava na fronte de um inocente! Depois, um homem dormia enquanto uma mãe velava um piazito que sorria e uma voz meiga cantava:
“Nana filhinho Que o bicho aí vem Papai foi dormir Mamãe vai também”
Reboou, porém, pelo pampa um grito de rebeldia! A ponta da lança esguia relampejou pela serra! Um turbilhão de galopes quebrou a paz da querência e em repúdio à prepotência um eco bradava: guerra! No rancho, portas trancadas, tremendo e o peito arfando, uma mãe abandonada cantava quase chorando:
“Nana filhinho Dorme meu bem Mamãe tá solita Papai logo vem”
Mas nunca mais o campeiro voltou ao rancho à tardinha; e a mãe gaúcha, coitada, ficou pra sempre sozinha! Pouco a pouco a dor pungente lhe consumiu a existência; e o filho ficou no mundo carpindo a triste indigência...
E agora uma voz alheia de outra mãe compadecida cantava a mesma canção pra criança adormecida:
“Nana filhinho mamãe logo vem...”
Mas a mamãe já não vem mais... e o papai... não vem também! .