Alma em Verso
Poesia

8 Os Olhos da Infância

Marcelo d’Ávila

II Tertúlia da Poesia - Santa MariaPublicado em

Os olhos da infância bombeiam distâncias pra além das cancelas e erguem castelos das pardas paredes de antigas taperas.

Em toscas taquaras enxergam pelagens de fletes de guerra e sobre seus lombos se lançam, valentes, em brutas refregas.

As mãos pequeninas empunham espadas de galhos de angico; Em cargas heroicas enfrentam sabiás, pardais, tico ticos.

Os olhos da infância desenham figuras nas nuvens do céu: Nhandús, jacarés, a cuia do mate, um poncho, um chapéu. Nos dias de vento inventam milongas nos fios do alambrado e a beira do açude compõem melodias pra um coro de sapos.

Namoram as flores que enfeitam de cores o verde do campo e morrem de amores pensando em cambichos nas portas dos ranchos.

Os olhos da infância têm medo da noite e as sombras que traz: as almas penadas, talvez, lobisomens. sacis, boi-tatás.

Em volta do fogo se fixam, atentos, nos causos que escutam, a bruxa-princesa que vive escondida nos fundos da gruta:

O velho sobrado que um dia foi palco de revoluções e esconde em seus cantos Pedaços de história e assombrações.

Descobrem poemas nos latos mais simples, nos mínimos gestos e voam sem asas sonhando acordados de olhos abertos.

Os olhos da infância vislumbram a beleza das coisas singelas por isso as crianças em sua pureza são todas poetas.

Porém, quando crescem, os olhos da infância se tornam tristonhos: esvai-se a poesia, acorda a ilusão, desfazem-se os sonhos.

Aos olhos adultos castelos são poeira que o vento desmancha; E, além das cancelas, o campo é o limite que a vista alcança.

As guerras são outras e já não existem heróis de a cavalo e a fantasia é um flete que poucos conseguem montá-lo. Os olhos adultos não sabem, por brutos, que a alma envelhece e enxergam apenas a imagem precisa que o espelho reflete.

Não sabem, por certo, que há um mundo invisível por trás dos espelhos, somente olhos puros - de infância e poesia – É que podem vê-los.

Será que a poesia Também envelhece? Ou só adormece Num sono profundo E fica esquecida Quando a gente cresce?

Que lindo se um dia Desperte a poesia Dormida em criança! E então, nossos olhos Enxergam o mundo Com olhos de infância.

Crédito da fonte: Marcelo Domingues D’Ávila