Alma em Verso
Poesia

4 . Negro Destino

Jorge Claudemir Soares

10º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em

Nasci rei na minha querência, e fui dono do meu chão; Andei livre como o vento já fui pai, já fui irmão. Mas, um dia fui caçado, virei carga de porão, enfrentei a peste braba e trabalhei pelo pão.

Virei gado numa feira, e moeda de negócios. já fui discórdia de sócios na partilha de meus filhos, me avaliaram pelo brilho da alvura dos meus dentes fui reprodutor de gente nas senzalas deste exilio.

Quando os laços estiraram palanqueando o “chimarrão”, fui eu quem rachou o garrão pisando os terreiros de sal, fiz um esforço colossal pra aguentar o sol no lombo e sonhar com um quilombo como a minha pátria ideal.

Andei léguas nestas terras seguindo rastros de arado, tive meu corpo esfolado no látego de algum insano. Campeei tropilhas de ruanos, com a benção de Maria e assombrei as sesmarias pra castigar um tirano.

Um dia me fiz lanceiro pra defender o Rio Grande, e ofertei o próprio sangue por um ideal bizarro, feneci no mesmo barro em que jazeram soldados, peleando desarmado traído por Canabarro.

Já fui diabo... já fui santo, dependendo as circunstâncias. nos confins destas distâncias, fui de novo atraiçoado me devolveram maneado em Ponche Verde, pro Império num acordo sem critérios de comandantes “acertados”.

Os filhos dos meus patrões foram meus irmãos de leite, embora, nenhum me aceite pra partilhar sua mesa, criaram-se com a certeza que nunca verão miséria e a preocupação mais séria foi desfrutar sua riqueza.

O que ganhei, foi desprezo... ignorância, sofrimento e dor, exploraram o meu suor e afanaram minha cultura, sobrou-me a vida dura separado da minha gente, porque me acharam diferente, pois, nasci com a lonca escura.

Minhas filhas foram objeto dos desejos de Senhores, padeceram os horrores de estupros consumados; pariram filhos acaboclados, pra perdê-los nos leilões, ou criá-los pelos galpões com a pecha de enjeitados.

Quando perdi serventia me expulsaram do campo, vim morar cá pelos cantos que me deram por esmola, comendo a própria cola como um lagarto teatino, vou morrer sem criar limo como pedra que muito rola. O hoje, é ontem sempre pra povo que foi cativo, tento manter-me altivo e suportar as lambadas; vivo ainda a chibatadas de hereges que me odeiam, os rancores me permeiam como lanças, afiadas.

Nas dificuldades passadas moldei minha descendência, mas, não mudei a essência de homem tosco e campeiro, talvez, nunca tenha dinheiro pra comprar minha liberdade; ou alguém já viu de verdade, algum negro estancieiro?

Não sou rei nesta querência, nem sou dono do meu chão! Não sou livre como o vento não tive pai e, nem irmãos, mas continuo sendo caçado pra coabitar a prisão, vou morrer com o destino de negro maula e fujão.

Quando, Deus criou o mundo fez os seus filhos iguais, e disse que o ódio jamais suplantaria a fraternidade, mas, o andar da humanidade caminhou na contramão, endureceu o coração e desobedeceu a sua vontade.

Que Jesus Cristo se apiede dos que me acham inferior, que eu sei, sou superior por todas as mazelas sofridas, lambi minhas próprias feridas e conheci as minhas verdades, eles não aguentariam a metade do que aguentei nesta vida.

Pela história que trago inserida na minha estampa, sou um dos pais desta pampa, e de parte destes confins; da longínqua terra que vim trouxe o trabalho no sangue e o progresso do Rio Grande ainda depende de mim