Alma em Verso
Poesia

11. Tributo a Memória de Um Carreteiro

Luís César Soares

I Sinos do Verso GaúchoPublicado em

...José Alves da Silveira... O tabelião timbrou e deu fé! Mas os irmãos e os amigos, unânimes, acharam por bem contestar. O batizaram “Dédé”...

Enquanto o carijó ensaiava os primeiros acordes do dia, longe, num leito de carreta, ia o piá manhoso choramingando no cabresto do destino...

O choro, aos poucos, foi se perdendo pelo pó da estrada enquanto o tempo tratava de mandar chapéu de palha e enxada... Era a doma da vida, era um trotear miúdo perante os olhos de navalha do pai...

A cada palmo do mundo que descobria, brotava de suas entranhas uma semente de amor pelas coisas simples da vida... A rabiça* do arado e a terra revolta... O campo e o lombo dos petiços... As sangas e as canhadas...

Nesse andejar pelos pagos, um tal Acelino Soares, abriu as porteiras da estância... Se fez homem comendo batatas assadas no borralho e guampas de coalhada... Dormindo entre balaios e quartas* de farinha... Engrossando a voz aos gritos de: “...Olha a canga Facero! Bamo Mimoso...! Já pra tráis Pitoco!...”

Do velho vinha a ordem: “...Dédé, depois da Canhada Funda, segue pelo rastro da estrada velha até chegar no atacado do Corrêa, dali até Porto Alegre não dá dois dias...”

Uma lida de gastar cambotas, sóis e guiadas, encontrando tropas e caixeiros... Presenciando enchentes e o bufar das sangas caborteiras que, a custo, afrouxavam o lombo e davam vau... Nas noites geladas se aquecia co’as mesmas brasas que tisnavam panelas recheadas de charque, que assim como ele, eram curtidos de sol, e sal.

O tempo veio mostrar que o velho patrão era um visionário que, nas longas tragadas, mesclava idéias e fumaça... “...Dédé, olha pra esse arremedo de estrada, não tarda o tal do caminhão vai passar aqui e picar as invernadas... Nossas carretas vão morrer ali no borralho da tafona... Farinha tá mermando...”

Era a verdade dura e absoluta na voz da experiência, Uma sabedoria que os “Novos” desconhecem Quando tem nos olhos a teimosia que vence a razão...

Comprou carreta e invernada, ergueu rancho, varanda e galpão... O suor irrigou sementes matizando os campos... Na cozinha de chão batido a mesa posta era simples mas, saciava a fome das bocas que, ora brincavam pelo terreiro, ora povoavam roçados ...

A profecia se cumpria... As carretas uma a uma eram engolidas pelas bocas do progresso... Sem saída, embretado, o carreteiro seguiu a procissão do povo... Cerrou em definitivo a porteira do rancho, Pegou o rumo dos corredores e foi viver na cidade.

A vida perdia o sentido nos bretes da Vila... Os sentidos se negavam a um mundo de motores, numa realidade sem berro de bois, sem choramingo de carreta e bufar de sangas... Restavam somente lamentos e dores...

O passado era um eco distante... Aos poucos, a catarata inundava os olhos que, marejados, não enxergavam a cor dos dias... Mal pôde ouvir quando disseram: “...Repouso seu Dédé!...” ...Alias, desconhecia o verbo “repousar”... E a penumbra encobriu a vida pra quem tanto viu o sol raiar, pra quem não aceitava os caminhões, nem os “autos” e tão pouco a tal evolução...

O homem rude, talhado em pau-ferro, sentia as maneias apertarem o coração... As mãos calejadas que, outrora, ampararam “regeiras” e “guiadas”, passavam a tatear o rosto macio dos netos, e a eles, contava causos e histórias, proezas e carreteadas... Dédé viajava no rastro das lembranças, mergulhando na sanga do tempo, na busca daquele:

“...Olha a canga Facero! Vira a cabeça Mimoso...!”

Hoje, as carretas dormem nos museus... Os arados enfeitam jardins... Bois carreiros descansam nos ganchos dos açougues... As gulosas loteadoras fatiam invernadas... As tafonas viraram ruínas... Morreram os bisavôs visionários! Morreu o homem que, contrariado, cerrou os olhos! Mas permanece viva a história e a memória dos nossos ancestrais!

* Rabiça do Arado: Cabo do arado por onde é empurrado. * Quarta: antiga medida. In memorian: José Alves da Silveira (Dédé) Acelino Peixoto Soares