Alma em Verso
Poesia

10. O Fogão dos Tropeiros Mortos - Juliano Javoski

Juliano Javoski

I Estância da Poesia Crioula - VirtualPublicado em

Dormem sob a coberta de cinzas do fogão tropeiro, mil histórias das “mil e uma rondas”; exageradas bravatas, roubos de guaiacas, pisadas no pala, duelos de faca...

Não bailam labaredas vivas mas vagam lembranças mortas a vigiar a antiga marca queimada no couro do chão.

Irreal, pra quem olha e nada vê. Transcedental, pra quem enxerga além-material.

O fogão dos tropeiros mortos guarda contos não escritos, pedras chamuscadas sobre assuntos e um resto de pai-de-fogo em negras brasas entalhado.

Bivaque das almas daqueles que partiram na última comitiva levando restos do fogo na baeta dos ponchos e picumãs nas abas dos sombreiros.

Muitos creem que, de fato, eles retornam pra volta do braseiro, talvez para concluírem alguns causos atorados então, por um grito de sorro ou o crocitar duma coruja em noites que se perderam na velhice do tempo.

Aparições, mulheres de branco, taperas assombradas, estórias “não bem contadas”, segredos que, a pedido, foram enterrados e esquecidos, ali no campeiro sepulcro.

Assembleia dos fantasmas desses tropeiros lamentando sonhos não realizados, qual poemas inacabados porque, na sua vida, não deu tempo, ou simplesmente porque o mundo não os quis por já serem velhos.

E mesmo assim eles o amaram tanto; e cercado por um megalítico de pedras brutas, duras qual a ingratidão, deixaram um coração de prata à sombra do antigo capão.

Eles retornam, sim, pra amenizar saudades deste mundo ao qual já pertenceram e hoje, ele não os compreende porque não os enxerga.

Não bailam labaredas vivas mas ressongam cantigas mortas de rondas que sobraram de antigos relentos, e luares, e vêm cruzando o tempo e se perpetuando nas lendas.

Irreal, mulheres de branco, lobisomens, taperas assombradas! Transcendental... Um resto de pai-de-fogo em negras brasas entalhado... Poema inacabado...