05 – Telúrico - Cândido Brasil
15º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
O pó do barro da terra é a origem de onde vim, sou matéria que encerra princípio, meio e fim, corpo que age, acerta e erra, por ser telúrico assim...
Do ventre da terra mansa fui tirado com afeto, moldado com esperança e dotado de intelecto, sendo origem e semelhança do supremo arquiteto.
Ganhei corpo e sentidos para ser assim, genuíno, com livre arbítrio concedido para fazer meu destino e a vida e cada sentido ganhei num sopro divino.
Sou um ser que acerta e erra com cromossomos em ampola e um telurismo que berra, das grimpa até a tejoula e cada célula encerra a pura cepa crioula.
Estrutura modelada na fusão dos elementos, água de fonte imaculada, fogo de chão trafuguento, terra de pátria sagrada e força xucra dos ventos...
Da mãe terra tenho o cheiro e seus variados matizes, o espírito aventureiro que é sujeito a deslizes e o velho estilo campeiro que preserva as raízes.
Meu olhar tem o verdejo do meu mate chimarrão, que sorvo em gole longevo, com calma e inspiração, onde carrego num beijo mais calor ao coração.
Com eles vejo lonjuras refletidas num mural de espelhos sem moldura, com luz de aurora boreal, que refletem esculturas com sua aura espiritual.
Minha boca tem o gosto do que desta terra sai, dá sorriso para o rosto, sente a lágrima que esvai e deixa ao mundo exposto meu grito de sapucai.
Com ela canto verdades, sorvo mate e alimento, rebato as falsidades, sorrio de contentamento e confirmo a identidade, terrunha cento por cento.
Meus ouvidos tem o dom de sentir volume farto e armazenar cada som de modo que não descarto, harpa, viola ou bandoneon, sorriso ou choro dum parto.
Com eles ganho vazão de tons e acompanhamentos, as vozes da criação e todos seus sentimentos, poesia e louvação, benzedura e livramentos.
Meu olfato traz nuances de sabores e aromas, captados em relances, preservando o axioma, selecionando romances e suspirando sintomas.
Com ele sinto fragrâncias de seres e materiais, recordações da infância dos tempos do nunca mais, cheiro de gente e distâncias, amigos, irmãos e pais.
Minhas mãos tem energia força e desprendimento, textura grossa ou macia conforme exige o momento, trazem o pão de cada dia e expõem calos e talento. Com elas abro fronteiras, crio meus próprios caminhos, seguro e ergo bandeiras, separo flores e espinhos, pego a mão da companheira, produzo e sinto carinhos.
Este feitio original, feito numa só demão, tem limo de banhadal, com cerne no coração e um cipó umbilical que me entrelaça ao rincão. Rincão, parte do meu ser, de onde trago este jeito, de pelear por bem querer, de dar e exigir respeito, com sua forma a bater do lado esquerdo do peito.
Este músculo sagrado que dentro do peito trago, pulsa num trote chasqueado e amolece com afago, tendo veias de alambrado marcando o mapa do pago. Ele norteia minha vida num galope caborteiro, suporta a dor reprimida, dá vaza ao sonho guerreiro, ama em nota sustenida e carrega o corpo inteiro.
Do corpo cedi a costela, com amor no coração e recebi ao doar ela, como complementação, a mulher, obra mais bela da suprema criação.
Me chamaram de chamigo, “gáucho”, gaúcho, guasca, que não refuga perigo, na soleira ou na borrasca, canta triste o canto antigo conservando a mesma casca.
Por isto tenho esta graça de nascer meridional e carregar na carcaça este meu gene ancestral, prolongamento da raça do velho pago natal.
Sou feito de terra, sim... campo, areia, cafundó em sesmarias sem fim que jamais estarão só pois voltarei donde vim à terra, do pó ao pó.